quinta-feira, 20 de abril de 2017

Holidays - uma grata surpresa do cinema de horror atual


Apesar da avalanche de filmes envolvendo assombrações (cheios das famigeradas jumpscares), assassinos sanguinários e seja lá o que for que anda monopolizando as produções de terror atualmente, ainda existe esperança para o cinema do medo, da apreensão e do susto.


Dia desses sai do meu looping de filmes antigos e resolvi assistir um mais recente e bastante interessante.

Holidays (EUA, 2016) é um daqueles antologias de terror que vale muito a pena assistir. O fio condutor, como o nome do filme entrega, são os feriados ou datas comemorativas. Foi uma sacada interessante utilizar datas que já conhecemos para contar histórias de terror, mesmo que isso já tenha sido feito de maneira bem trash (Não estou indicando, apenas mencionando: Natal Sangrento, Krampus, a refilmagem do Dia dos Namorados Macabro, Dia das brincadeiras mortais (que faz referência ao 1º de abril americano, dia dos Tolos), Dia das mães - esse é horrível, etc etc etc).


Sem mais delongas, vamos ver um pouco sobre cada um. Vou me segurar ao máximo para não dar nenhum tipo de spoillers... Se algum escapar, não foi intencional.


Dia dos Namorados

Uma adolescente é apaixonada por seu professor de mergulho olímpico. Durante os momentos em que estão juntos, ela foge da realidade e vai pra um mundo de pensamentos felizes no qual ele também a ama.

O grande problema é que: A) as colegas de treino fazem a garota passar o inferno com perseguições e brincadeiras de mau gosto. B) o professor tem um problema de saúde sério. C) é dia dos namorados.

Esse segmento é um pouco fraco e meio que entrega o que vai acontecer em determinado momento da história. Mas mesmo assim não é um episódio de todo ruim, principalmente pelo desempenho de Madeleine Coghlan, a protagonista com sua cara de maluquinha adorável.
 

Dia de São Patrício


Oba! Aula de biologia...
Uma professora novata do primário enfrenta dificuldades em lidar com uma de suas alunas, uma menininha incrivelmente perturbadora e aparentemente adepta de práticas pagãs.



... Posso dissecar meu sapo vivo?

Esse é um dos melhores episódios. A atmosfera de ameaça vai se construindo aos poucos e a história oferece uma reviravolta muito bem construída. É um daquelas histórias de terror em que, no final, tudo se encaixa.


A árvore da maldição... não, pera.

Além disso, o desempenho da professora (a atriz Ruth Bradley) e da menina (a pequena Isolt McCaffrey) é impecável. A menininha é ameaçadora mesmo com toda a sua fragilidade física e a professora consegue fazer com que nos preocupemos com seu destino.

Páscoa

Esse aqui ganhou pontos comigo por ser curto, porque é uma história meio sem pé nem cabeça. Uma menina fica chocada ao ver o algo andando por sua casa em uma certa noite. Não revelarei mais pra não estragar a surpresa, mas é isso aí em resumo.

Três letras pra você: WTF?

Esse episódio tem um monte de coisas erradas. Começa morno, não desenvolve muito, a criatura aparece...  Apostaram muito mais no horror e no repulsivo do que em criar uma atmosfera de terror.

Dia das Mães

Era uma vez uma mulher que não conseguia parar de engravidar. Toda vez que ela tem relações sexuais, ela engravida.

(é isso aí que você leu, toda vez que namora pelada a moça fica grávida... parafraseando Gary Oldman em O Profissional:  Como assim "toda vez?" TOOOOOOOOOOOOOOOODA A VEZ!")




Por indicação de uma médica que a atende, ela acaba se envolvendo com um grupo de mulheres (feiticeiras) que vivem longe da civilização.


Pela mão, é o Dart Maul...

Apesar de imagens impactantes, esse é o pior de todos. Mesmo sendo uma história curta, conseguiram imprimir um ritmo muito arrastado.  A personagem principal deste também não conseguiu despertar empatia suficiente para que houvesse uma preocupação real com sua segurança - coisa básica para uma história de horror.

Dia dos Pais

Uma jovem recebe uma fita cassete misteriosa de seu pai, que desapareceu há muito tempo. O pai gravou a fita quando ela ainda era criança, no mesmo dia em que desapareceu. Quando ela começa a escutar a fita, o pai dá indicações sobre como ela pode encontrá-lo.

Esse aqui se sai muito bem. Conseguiu prender a atenção e me deixou na ponta da cadeira esperando o desfecho. É uma daquelas típicas situações em que você percebe que no fim tudo não vai acabar bem.

Halloween

Um homem (um ogro, na verdade, melhor exemplar de lixo humano machista, mal educado e abusivo) conduz um serviço de vídeos sexuais pela internet. Suas três funcionárias são mal tratadas por ele e mantidas praticamente como prisioneiras. Esse foi um dos seus maiores erros.

Esse segmento é bem interessante e consegue unir humor e um toque de sangue que não deixa nada a dever à série de filmes Jogos Mortais.

Natal

Para conseguir o presente de Natal do seu filho, um homem acaba cruzando os limites do aceitável.



Esse aqui também ganha pontos por originalidade. Conseguiu criar uma fábula que fala sobre expectativa, posse, consumo, desejos e percepção.  Sem contar que Seth Green dá um show como o cara bobão, infernizado pela mulher e que não quer decepcionar o filho... a ponto de... 

Véspera de Ano Novo

Um assassino em série que encontra suas vítimas entre aspirantes a namorada pela internet (não consegui entender se era Par Perfeito, Tinder ou algo do tipo) se prepara para atacar sua última vítima do ano, em pleno dia 31 de dezembro. Depois de uma conversa muito desajeitada em um restaurante, os dois vão pra casa dela para "conversar em particular".

Apesar da reviravolta meio manjada, vale a pena conferir.


Assista a esse filme. Como eu disse no começo, é bom ver que o cinema de terror não se resume a irritantes sustos repetitivos, baldes de sangue e vísceras, fantasmas e mortes espetaculares. Ainda existem produções muito boas e que, infelizmente, em geral ficam longe dos holofotes do grande circuito cinematográfico.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Os Olhos que Comiam Carne - Humberto de Campos (Parte II)

O processo Plateu era constituído por uma aplicação da lei de Roentgen, de que resultou o Raio-X, e que punha em contacto, por meio de delicadíssimos fios de "hêmera", liga metálica recentemente descoberta, o nervo seccionado. Completava-o uma espécie de parafina adaptada ao globo ocular, a qual, posta em contacto direto com a luz, restabelecida integralmente a função desse órgão. Cientificamente, era mais um mistério do que um fato. A verdade, era que as publicações européias faziam, levianamente ou não, referências constantes às curas miraculosas realizadas pelo cirurgião de Berlim, e que seu nome, em breve, corria o mundo, como o de um dos grandes benfeitores da Humanidade.

Meia hora depois as portas da sala de cirurgia do Grande Hospital de Clínicas se reabriam e Paulo Fernando, ainda inerte, voltava, em uma carreta de rodas silenciosas, ao seu quarto de pensionista. As mãos brancas, postas ao longo do corpo, eram como as de um morto. O rosto e a cabeça envoltos em gaze, deixavam à mostra apenas o nariz afilado e a boca entreaberta. E não tinha decorrido outra hora, e já o professor Platen se achava, de novo, a bordo, deixando a recomendação de que não fosse retirada a venda, que pusera no enfermo, antes de duas semanas.

Doze dias depois passava ele, de novo, pelo Rio, de regresso para a Europa. Visitou novamente o operado, e deu novas ordens aos enfermeiros. Paulo Fernando sentia-se bem. Recebia visitas, palestrava com os amigos. Mas o resultado da operação só seria verificado três dias mais tarde, quando se retirasse a gaze. O santo estava tão seguro do seu prestígio que ia embora sem esperar pela verificação do milagre.

Chega, porém, o dia ansiosamente aguardado pelos médicos, mais do que pelo doente. O Hospital encheu-se de especialistas, mas a direção só permitiu, na sala em que se ia cortar a gaze, a presença dos assistentes do enfermo. Os outros ficaram fora, no salão, para ver o doente, depois da cura.
Pelo braço de dois assistentes, Paulo Fernando atravessou o salão. Daqui e dali, vinham-lhe parabéns antecipados, apertos de mão vigorosos, que ele agradecia com um sorriso sem endereço. Até que a porta se fechou, e o doente, sentado em uma cadeira, escutou o estalido da tesoura, cortando a gaze que lhe envolvia o rosto.

Duas, três voltas são desfeitas. A emoção é funda, e o silêncio completo, como o de um túmulo. O último pedaço de gaze rola no balde. O médico tem as mãos trêmulas. Paulo Fernando, imóvel, espera a sentença final do Destino.

- Abra os olhos! - diz o doutor.

O operado, olhos abertos, olha em torno. Olha e, em silêncio, muito pálido, vai se pondo de pé. A pupila entra em contacto com a luz, e ele enxerga, distingue, vê. Mas é espantoso o que vê. Vê, em redor, criaturas humanas. Mas essas criaturas não têm vestimentas, não têm carne; são esqueletos apenas; são ossos que se movem, tíbias que andam, caveiras que abrem e fecham as mandíbulas! Os seus olhos comem a carne dos vivos. A sua retina, como os raios-X, atravessa o corpo humano e só se detém na ossatura dos que a cercam, e diante das cousas inanimadas! O médico, à sua frente, é um esqueleto que tem uma tesoura na mão! Outros esqueletos andam, giram, afastam-se, aproximam-se, como um bailado macabro!

De pé, os olhos escancarados, a boca aberta e muda, os braços levantados numa atitude de pavor, e de pasmo, Paulo Fernando corre na direção da porta, que adivinha mais do que vê, e abre-a. E o que enxerga, na multidão de médicos e de amigos que o aguardam lá fora, é um turbilhão de espectros, de esqueletos que marcham e agitam os dentes, como se tivessem aberto um ossuário cujos mortos quisessem sair. Solta um grito e recua. Recua, lento, de costa, o espanto estampado na face. Os esqueletos marcham para ele, tentando segurá-lo.

- Afastem-se ! Afastem-se - intima, num urro que faz estremecer a sala toda.


E, metendo as unhas no rosto, afunda-as nas órbitas, e arranca, num movimento de desespero, os dois glóbulos ensangüentados, e tomba escabujando no solo, esmagando nas mãos aqueles olhos que comiam carne, e que, devorando macabramente a carne aos vivos, transformavam a vida humana, em torno, em um sinistro baile de esqueletos...

(Fim)

Os Olhos que Comiam Carne - Humberto de Campos (Parte I)


Na manhã seguinte à do aparecimento, nas livrarias, do oitavo e último volume da História do Conhecimento Humano, obra em que havia gasto catorze anos de uma existência consagrada, inteira, ao estudo e à meditação, o escritor Paulo Fernandes esperava, inutilmente, que o sol lhe penetrasse no quarto. Estendido, de costas, na sua cama de solteiro, os olhos voltados na direção da janela que deixara entreaberta na véspera para a visita da claridade matutina, ele sentia que a noite se ia prolongando demais. O aposento permanecia escuro. Lá fora, entretanto, havia rumores de vida. Bondes passavam tilintando. Havia barulho de carroças no calçamento áspero. Automóveis buzinavam como se fosse dia alto. E, no entanto, era noite, ainda. Atentou melhor, e notou movimento na casa. Distinguia perfeitamente o arrastar de uma vassoura, varrendo o pátio. Imaginou que o vento tivesse fechado a ]anela, impedindo a entrada do dia. Ergueu, então, o braço e apertou o botão da lâmpada. Mas a escuridão continuou. Evidentemente, o dia não lhe começava bem. Comprimiu o botão da campainha. E esperou.

Ao fim de alguns instantes, batem docemente à porta.

- Entra, Roberto.

O criado empurrou a porta, e entrou.

- Esta lâmpada está queimada, Roberto? - indagou o escritor, ao escutar os passos do empregado no aposento.

- Não, senhor. Está até acesa..

- Acesa? A lâmpada está acesa, Roberto? - exclamou o patrão, sentando-se repentinamente na cama.

- Está, sim, senhor. O doutor não vê que está acesa, por causa da janela que está aberta.

- A janela está aberta, Roberto? - gritou o homem de letras, com o terror estampado na fisionomia.

- Está, sim, senhor. E o sol está até no meio do quarto.

Paulo Fernando mergulhou o rosto nas mãos, e quedou-se imóvel, petrificado pela verdade terrível. Estava cego. Acabava de realizar-se o que há muito prognosticavam os médicos.

A notícia daquele infortúnio em breve se espalhava pela cidade, impressionando e comovendo a quem a recebia. A morte dos olhos daquele homem de quarenta anos, cuja mocidade tinha sido consumida na intimidade de um gabinete de trabalho, e cujos primeiros cabelos brancos haviam nascido à claridade das lâmpadas, diante das quais passara oito mil noites estudando, enchia de pena os mais indiferentes à vida do pensamento. Era uma força criadora que desaparecia. Era uma grande máquina que parava. Era um facho que se extinguia no meio da noite, deixando desorientados na escuridão aqueles que o haviam tomado por guia. E foi quando, de súbito, e como que providencialmente, surgiu na imprensa a informação de que o professor Platen, de Berlim, havia descoberto o processo de restituir a vista aos cegos, uma vez que a pupila se conservasse íntegra, e se tratasse, apenas, de destruição ou defeito do nervo óptico. E, com essa informação, a de que o eminente oculista passaria em breve pelo Rio de Janeiro, a fim de realizar uma operação desse gênero em um opulento estancieiro argentino, que se achava cego há seis anos e não tergiversara em trocar a metade da sua fortuna pela antiga luz dos seus olhos.

A cegueira de Paulo Fernando, com as suas causas e sintomas, enquadrava-se rigorosamente no processo do professor alemão: dera-se pelo seccionamento do nervo óptico. E era pelo restabelecimento deste, por meio de ligaduras artificiais com uma composição metálica de sua invenção, que o sábio de Berlim realizava o seu milagre cirúrgico. Esforços foram empregados, assim, para que Platen desembarcasse no Rio de Janeiro por ocasião de sua viagem a Buenos Aires.

Três meses depois, efetuava-se, de fato, esse desembarque. Para não perder tempo, achava-se Paulo Fernando, desde a véspera, no Grande Hospital das Clínicas. E encontrava-se já na sala de operações, quando o famoso cirurgião entrou, rodeado de colegas brasileiros, e de dois auxiliares alemães, que o acompanhavam na viagem, e apertou-lhe vivamente a mão.

Paulo Fernando não apresentava, na fisionomia, o menor sinal de emoção. O rosto escanhoado, o cabelo grisalho e ondulado posto para trás, e os olhos abertos, olhando sem ver: olhos castanhos, ligeiramente saídos, pelo hábito de vir beber a sabedoria aqui fora, e com laivos escuros de sangue, como reminiscência das noites de vigília. Vestia pijama de tricoline branca, de gola caída. As mãos de dedos magros e curtos seguravam as duas bordas da cadeira, como se estivesse à beira de um abismo, e temesse tombar na voragem.

Olhos abertos, piscando, Paulo Fernando ouvia, em torno, ordens em alemão, tinir de ferros dentro de uma lata, jorro d'água, e passos pesados ou ligeiros, de desconhecidos. Esses rumores eram, no seu espírito, causa de novas reflexões.

Só agora, depois de cego, verificara a sensibilidade da audição, e as suas relações com a alma, através do cérebro. Os passos de um estranho são inteiramente diversos daqueles de uma pessoa a quem se conhece. Cada criatura humana pisa de um modo. Seria capaz de identificar, agora, pelo passo, todos os seus amigos, como se tivesse vista e lhe pusessem diante dos olhos o retrato de cada um deles. E imaginava como seria curioso organizar para os cegos um álbum auditivo, como os de datiloscopia, quando um dos médicos lhe tocou no ombro, dizendo-lhe amavelmente:

- Está tudo pronto... Vamos para a mesa... Dentro de oito dias estará bom. .

O escritor sorriu, cético. Lido nos filósofos, esperava, indiferente, a cura ou a permanência na treva, não descobrindo nenhuma originalidade no seu castigo e nenhum mérito na sua resignação. Compreendia a inocuidade da esperança e a inutilidade da queixa. Levantou-se, assim, tateando, e, pela mão do médico, subiu na mesa de ferro branco, deitou-se ao longo, deixou que lhe pusessem a máscara para o clorofórmio, sentiu que ia ficando leve, aéreo, imponderável. E nada mais soube nem viu.

(continua)

domingo, 29 de janeiro de 2017

Fossa das Marianas - O Abismo Negro da vida real

Imagine um abismo interminável, com quilometros de profundidade, intocado pela luz solar e habitado por criaturas que ainda permanecem totalmente desconhecidas da humanidade. Um lugar inóspito para o ser humano, que só pode chegar lá equipando submarinos especiais e onde não pode montar uma base ou estação permanente, seja militar, científica ou comercial. Um lugar ainda menos conhecido do que a Lua ou o próprio espaço.
Esse lugar existe.

Sua localização é extamente nas coordenadas 11° 21' N 142° 12' E.

Vamos falar um pouco sobre a Fossa das Marianas.

E depois que souber um pouco mais sobre esse interessante lugar, imagine parar seu barco para pescar exatamente sobre ele.

Localização da Fossa das Marianas


Fossa das Marianas


Ilhas Marianas


Fossa das Marianas é o local mais profundo dos oceanos, atingindo uma profundidade de 11034 metros.  Está localizada no Oceano Pacífico, a leste das Ilhas Marianas, na fronteira convergente entre as placas tectonicas do Pacífico e das Filipinas. Geologicamente, a fossa das Marianas é resultado geomorfológico de uma zona de subducção (Santa Algaravia, Batman!). 
Esquema de uma Zona de Subducção
O ponto mais profundo da fossa foi sondado pelos navios Challenger e Challenger II em 1951, da Marinha Real. O local foi batizado, então, de Challenger Deep.

O fundo da fossa das Marianas foi atingido em 1960 pelo batiscafo Trieste, da marinha dos Estados Unidos, tripulado pelo tenente Don Walsh e o cientista suíço Jaques Piccard, que passaram 20 minutos no fundo do oceano, numa expedição que durou ao todo 9 horas.

Trieste

Emblema do Batiscafo Trieste

O batiscafo Trieste foi desenhado por Jaques August Piccard e foi posto em atividade a 26 de agosto de 1952, no Mar Mediterrâneo, na Ilha de Capri, próximo a Nápoles, Itália A esfera de pressão, composta de duas secções, foi construída pela empresa Acciaierie Terni, e a parte superior foi fabricada pela Cantieri Riuniti dell 'Adriatico, na cidade livre de Trieste, na fronteira entre a Itália e a Iugoslávia. A instalação da pressão foi feita na Esfera Cantiere Navale di Castellammare di Stabia, perto de Nápoles.

O projeto foi baseado em experiências anteriores com o batiscafo FNRS-2, também projetado por Piccard. Foi construído na Bélgica e operado pela Marinha Francesa, permanecendo em operação no Mediterrâneo. O batiscafo tinha a capacidade de atuar independentemente do navio-mãe, não precisando de cabos umbilicais.

 O batiscafo é um veículo submersível
próprio para explorar águas profundas,
 capaz de suportar a pressão gigantesca da água
Em 1958, foi comprado pela marinha dos Estados Unidos por 250.000 dólares e transportado para San Diego, Califórnia.
Em outubro de 1959, depois de ser reequipado para operar em uma pressão mais forte, o Trieste foi transportado para o meio-Pacífico para participar no Projecto "Nekton", no qual realizou uma série de mergulhos muito profundos na Fossa das Marianas.

Em 23 de janeiro de 1960 alcançou o recorde de profundidade de 35.800 pés (10.911 metros), no Challenger Deep, o mergulho mais profundo em qualquer dos oceanos do mundo. Nesta ocasião, eram seus tripulantes o engenheiro e oceanógrafo suíço, Jacques Piccard, e o Tenente da Marinha americana, Don Walsh.

Don Walsh

Jacques Piccard
Em abril de 1963, foi transportado para o Atlântico, mais precisamente a New London, Connecticut, para procurar o então perdido submarino USS Thresher (SSN-593), o qual o encontrou em agosto de 1963 fora de New London a 1.400 braçadas abaixo da superfície.
O Trieste foi retirado de serviço logo após a realização dessa missão, sendo reformado, e alguns de seus componentes foram utilizados no recém-construído Trieste II. Ele está agora em exposição permanente no Museu da Marinha, no Washington Navy Yard, Washington, DC.



Batiscafo Trieste (1960)
Pouco antes de estabelecer o recorde de profundidade




Fauna Abissal


No início do século XIX foram
obtidas algumas das primeiras provas da existência de vida a grandes profundidades. Estas observações foram realizadas por Sir John Ross, em 1818, durante a sua viagem para encontrar a passagem, por noroeste, entre o Oceano Atlântico e o Pacífico, tendo recolhido, a cerca de 500-600 braças de profundidade, um conjunto de animais invertebrados. Em Portugal existem publicações da Real Academia de Ciências de Lisboa, datadas de 1815 e 1818, sobre a costa do Algarve, relatando a existência de pesqueiros localizados a 400 braças, onde os pescadores operavam com sucesso, bem como a ocorrência de vários seláceos entre 350 e 550 braças. Apesar destes registos, a comunidade científica rejeitou, até meados do século XIX, a existência de vida nas grandes profundidades marinhas. A prova definitiva da existência de organismos vivos abaixo de 300 braças surgiu em 1859, quando foi levantado, para reparações, o cabo telegráfico que unia a Sardenha ao norte de África, proveniente de 1800 m de profundidade, e onde foram encontrados corais solitários e moluscos.

Quem desejar converter braças para metros, acesse

http://www.sportnautica.com.br/unidades.htm



Abaixo da plataforma continental, a partir dos 150 a 200 m até às máximas profundidades conhecidas, ou seja, cerca de 11 000 m (fossa das ilhas Marianas), encontra-se o mundo das grandes profundidades marinhas. Embora constituam o maior biótopo existente no nosso planeta, estas zonas são também as menos conhecidas, sendo a sua investigação muitas vezes comparada à conquista do espaço.

As características morfológicas e anatômicas dos organismos que vivem a grandes profundidades, bem como a sua fisiologia e distribuição, são diferentes daqueles que se podem observar mais próximo da superfície do mar, devido às condições ambientais aí existentes. A falta de luz e ausência de vegetais, as baixas temperaturas e elevada pressão são as condições dominantes do meio profundo.

A seguir, alguns exemplos das criaturas abissais (em um próximo post espero poder falar mais sobre eles e especialmente de um habitante bem assustador do local: um suposto tubarão anormalmente gigantesco, avistado e filmado por sondas japonesas).

Tubarão Goblin


Stargazer

Stargazer




Peixe-Ogre

Tubarão-Fantasma




Fonte Principal


sábado, 28 de janeiro de 2017

Contos da Escuridão - Pérola Obscura dos anos 80


Dia desses, garimpando filmes antigos no YouTube, me deparei com uma pérola dos filmes de terror no formato de antologia dos anos 80: Contos da Escuridão (Tales from the Darkside: The Movie; 1990).  Apesar de ter sido lançado nos cinemas em 1990, a linguagem, o clima e os sustos são bem anos 80, na melhor forma possível.

Então, sem mais delongas, vamos falar sobre esse clássico obscuro.







O FILME

O nome é baseado em um seriado de histórias de terror, fantasia e ficção científica que foi ao ar entre 1983 e 1988 na televisão americana. Cada episódio era uma história independente, que geralmente terminava com uma reviravolta no enredo (plot twist).

O filme é organizado na forma de antologia. Três histórias são contadas e existe uma quarta que serve para ligar as demais. As três histórias são basicamente bem diferentes por um motivo bem especial: cada uma delas foi baseada no conto de um escritor.  Ou seja, não espere o susto pelo susto, com desfiles de monstros e enredo inexistente... as histórias aqui são obras de mestres.

A HISTÓRIA DE LIGAÇÃO

O filme começa com uma senhora chegando em casa ("Debbie" Harry, ela mesma, vocalista do Blondie, ex-namorada de Joey Ramone e atriz de diversos filmes). Descobrimos que ela mantém preso em sua dispensa um menino (Matthew Lawrence, que mais tarde faria "Uma Babá quase Perfeita) e que seus planos incluem o garoto como prato principal.

Essa parte faz uma referência a João e Maria, os irmãos que também eram o sonho de consumo culinário de uma certa bruxa...



Disposto a ganhar tempo, o pirralho começa a ler alguns contos de um livro que ela tinha deixado para ele. Esse é o gancho para a apresentação das demais histórias.

Gosto muito da Debbie, mas revendo esse filme tenho a impressão de que ela estava sob efeito de anestésicos quando gravou suas cenas.







LOTE 249

 Baseado em um conto de Sir Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes), esse foi considerado por muitos críticos como segmento mais fraco.  Eu discordo. Não dá pra desmerecer um segmento que tem Steve Buscemi como vilão, mesmo que um pouco caricato.  Não consigo assistir esse filme sem pensar que ele tem algum parentesco com Herbert West, o Re-Animador (Re-Animator), personagem de H.P. Lovecraft. Os dois tem muito em comum: estudantes solitários, esquisitões e brilhantes... só que...

O filme mostra o universitário Andy (Christian Slater, que consegue empregar sua canastrice ao personagem de forma hilária) às voltas com uma questão delicada: sua irmã Susan (Moore ainda novinha no cinema mas fazendo muito bem o papel de uma cretina diplomada) e seu namorado Lee (Robert Sedgwick, boa sorte procurando a filmografia dele) passaram outro aluno para trás para conseguirem uma cobiçada bolsa estudantil.


Acontece que o aluno enganado, Bellingham (Steve Buscemi), não fica muito satisfeito e, sabendo da mutreta, arma sua vingança. E como ele faz isso? Com estilo "C.D.F. do mal"!


Através de um antigo encantamento, ele reanima uma múmia que adquiriu recentemente (o lote de número 249 do título) para que o monstro se vingue de seus desafetos.

Cabe a Andy tentar enfrentar o seu colega e por um fim na história toda.





Gosto muito desse segmento pelo clima de suspense. A dinâmica dos acontecimentos se sobrepõe criando aos poucos, mas sem enrolar demais, uma aura de apreensão. Em tempos de filmes com jumpscares a cada 15 minutos, é a típica situação que devia ser valorizada.

Um pequeno parêntese: O conto foi escrito em 1892. Apesar do filme ser ambientado em uma época mais contemporânea, a compra da múmia, algo não tão incomum em 1892, foi mantida. 

GATO DO INFERNO

Adaptado de um conto de Stephen King, esse segmento tem um ar mais sombrio e sempre me fez pensar nos antigos filmes de mistério da Hammer.



Um homem "muito profissional" chega a uma mansão isolada em uma noite escura e assustadora. Ele tem uma reunião de negócios com o Sr. Drogan (William Edward Hickey), um homem idoso em cadeira de rodas, agora o único morador da mansão.

Drogan, o milionário dono de uma indústria farmacêutica, quer contratar os serviços de Halston (David Johansen, que além de ator e compositor, foi um dos membros fundadores da banda de rock New York Dolls, uma das preferidas dos... Ramones!) como assassino profissional para se livrar de uma vítima no mínimo inusitada: um gato preto que também habita a mansão. Pelo serviço ele receberá $ 100.000,00 (cem mil dólares!!!!).

Drogan conta ao assassino que o gato, apesar de parecer inocente, foi o responsável pela morte de três pessoas que moravam naquela mansão.

Claro que, pela moleza do serviço, o assassino aceita.

Trouxa!

VOTOS DE AMOR

A terceira história é baseada em um autor pouco conhecido no Brasil (pelo menos eu nunca tinha ouvido falar nele e fui salvo pela Wikipedia ao escrever essa postagem...): Lafcadio Hearn ou Koizumi Yakumo, escritor com nacionalidade Grega e Irlandesa.  Esse conto dele é baseado em uma lenda japonesa popular, a Yuki-onna.



Preston (James Remar, um cara que praticamente só recebe papel de vilões em tudo que é filme que faz), escultor, está em pleno inferno astral: seu agente dá um pé na sua bunda, suas obras perdem espaço na galeira e ele está devendo rios de dinheiro. Pra completar seu infortúnio, ao voltar para casa depois de uma sessão de bebedeiras presencia algo macabro: um monstro mata um homem em um beco escuro e diz que poupará a vida do artista se ele não contar nada. Claro que o artista aceita e, com medo de que o mostrão mude de ideia, sai correndo dali.

Na mesma noite ele conhece a bela Carola (Rae Dawn Chong, que explodiu um carro da polícia com uma bazuca em Comando Para Matar) e eles acabam tendo um relacionamento duradouro. Se casam, tem filhos, as obras dele começam a fazer sucesso. E então, anos depois, ele resolve que deve contar o que aconteceu naquela noite à esposa.

Aguarde o final.

E depois disso tudo temos o final da história de ligação.

Claro que depois de tantos anos o filme envelheceu. Claro que os efeitos especiais, pra uma platéia acostumada à bizarrice do C.G.I., podem parecer pueris.  Mas se você estiver procurando um terror divertido, para ver com amigos num encontro ou mesmo aproveitar uma noite do tipo "edredom e pipoca", pode tentar esse aqui sem medo de errar.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A Casa dos 7 Mortos - Filme B (2 de 2)


... Continuando de onde parei...

Quando estão andando pela casa, o galã encontra uma porta que leva para um quarto secreto, repleto de itens de magia negra. Dave acha um livro chamado Livro Tibetano dos Mortos. E tem a brilhante ideia de usá-lo nas filmagens, para dar mais veracidade às filmagens.


Um aparte sobre o tal livro. Não convence... não dá pra acreditar que apenas algumas palavras recitadas por um dos atores trouxesse o horror pra acabar com eles. Talvez fosse mais crível se, além das palavras, algumas práticas fossem retiradas do livro e encenadas. Por mais que hoje em dia essa seja uma ideia utilizada à exaustão, talvez fosse uma modificação que contribuísse para o filme.  Sem contar com o próprio nome do livro...  "Livro Tibetano dos Mortos"... ah, por favor...  Por que não fizeram uma pesquisa um pouco mais aprofundada em literatura proibida e utilizaram algo mais impactante...  o Necronomicon, ou o Des Vermis Misteriis,  ou, já que o zumbi é chamado de "Ghoul", por que não usar o Cultes des Goules????

Continuando...

O zelador é meio que o red herring do filme (arenque vermelho, ou arenque defumado, é um termo utilizado para indicar uma pista falsa. O nome vem da estratégia usada por criminosos perseguidos por cães farejadores: esfregar arenque defumado no seu rastro para que o cheiro forte confunda os cachorros). Algumas situações levam a crer que o sr. Price é algum tipo de ente sobrenatural. O casalzinho Anna e Dave chegam a vê-lo entrando em um dos túmulos do cemitério.  

Churrasco de gato do inferno!

Lá pelas tantas, o gato de Gayle some. Ele só é encontrado no dia seguinte. Quer dizer, é mais ou menos encontrado. Alguém retalhou o bicho e só acham a parte da frente dele. Claro que o diretor vai tirar satisfações com o Cara Sinistro local, o sr. Price. No meio do processo ele afana, na cara de pau, um revólver que o senhor Price tinha guardado. Aí acontece uma conversa dos dois no subsolo da casa do Price... Basicamente não entendi muita coisa mas, pelo pouco que eu entendi, ele faz lápides para o cemitério...  mas pra quê? Em certa hora do filme ele diz que existe um túmulo vazio no cemitério... a finada patroa dele pediu isso. Mas pra quê????

As filmagens continuam. O livro é finalmente usado em uma cena. Na hora em que estão filmando, Dave some (suspeito... muito suspeito...). Enquanto a filmagem continua, o sr. Price, que está lendo um livro em sua casa (provavelmente Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas), escuta um som estranho vindo do cemitério e vai investigar.


"Desculpe querida... estou meio morto..."
Aí realmente a coisa fica confusa. A mão do defunto reanimado pelo ritual da filmagem sai da terra com uma lerdeza absurda. E mesmo assim ele consegue agarrar a perna - ou a barra da calça, não sei - do senhor Price. Conseguiram fazer uma cena lenta ser confusa. Como se alternam as imagens da filmagem - com a reanimação de um cadáver também, que criativo - com o que está acontecendo no filme, do nada já vemos o tal zumbi agarrado no pescoço do sr. Price.


 
Com a morte do sr. Price e o fim das filmagens, começam a empacotar as coisas. Essa tem, pra mim, uma das cenas que mais me assustaram durante a infância. Vemos as sombras de uma árvore balançando para, em seguida, surgir a sombra do zumbi avançando lentamente.

Ponto positivo: o  tal zumbi, ou ghoul nos créditos originais, não é mostrado logo de cara... bom, quer dizer, se você ignorar a imagem da caroncha dele no começo do filme. Agora fiquei na dúvida se dou um ponto ou se tiro um ponto.... enfim... vou considerar um ponto positivo.


Sempre achei esse Zumbi parecido com o Kiko.



O ponto negativo é a velocidade com que o zumbi se move. Eu cronometrei: logo de cara ele demora cerca de 40 segundos para percorrer uma distância de mais ou menos 4 metros, o que dá um metro percorrido a cada 10 segundos...
Logo de cara, mesmo com sua falta de velocidade , o zumbi mata logo 3. Um encurralado no caminhão de equipamentos e dois na sala onde filmavam. Sorte que um ficou esperando assustado enquanto o outro era esganado...

Gayle está esperando o diretor pra dar umas bitocas nele, mas que aparece é o defunto.  Como ela acabou de se perfumar e sente a catinga que o zumbi deve emitir, sai correndo dali. Pra dar mais aquele ar de filme de terror, ela cai na escada, mas se levanta e continua correndo. Vai pro quarto e pega a arma do diretor (cara, eu nem sabia que eles dormiam juntos ou que ela sabia da arma!). Só que na hora de meter uma azeitona no bicho feio, ela atira num colega de filmagem, o coitado do blablabla. Só depois de descarregar todos os tiros ela percebe que atirou errado. Fica tão chocada que entra de ré num quarto onde o zumbi a espera literalmente de braços abertos...

As roupas no varal!!!!
Anne escuta os tiros quando está tomando banho. Sai de toalha mesmo e encontra Gayle enforcada. Aí começa a gritar e cai... Até hoje  não sei se desmaiada ou morta.  Mas como posteriormente ela é encontrada no rio, acho que só desmaiou...








Enquanto isso o diretor e Dave estão fazendo uma tomada final no cemitério. Acabam encontrando o corpo do sr. Price. Dave mostra um tumulo vazio para o diretor e do nada começam a brigar. O diretor dá um golpe em Dave e o joga dentro da cova vazia. Enquanto está ali deitado ele resolve dar uma lida no que está escrito no túmulo vazio.
Aí o filme começa a abusar...

Ele lê a inscrição: "David... 1872-1896". Nessa mesma hora a mão de David emerge do túmulo... ele virou um zumbi!!!!

O diretor cai no meio do caminho quando fugia pra mansão e fica deitado no chão desacordado tempo suficiente pro zumbi chegar mais perto... mas ele acaba nem chegando. Pra você ver como ele também é lerdo.

Taca na mãe pra ver se quica!
Quando chega na casa ele vai encontrando todo mundo morto. Pra piorar, e o que deixa ele mais desesperado, alguém destruiu o filme todo do cara.  Enquanto grita desesperado, aparece o zumbi 1 e joga uma câmera em cima do diretor. Uma coisa é preciso reconhecer: essa foi uma morte bem original...


Uma montagem com as mortes dos Beal e do pessoal da filmagem é mostrada, meio que forçando uma associação entre as mortes do passado que se repetem. Mas levando em conta que os primeiros que morreram foram enforcados pelos zumbi, que similaridade é essa?

A cena final mostra o zumbi David encontrando o cadáver de Anne boiando sob uma ponte. Ele a pega nos braços e sai andando com ela. O amor é lindo! Ele entra na cova, ainda com Anne nos braços. É mostrada a placa com a inscrição do nome dele - eu imagino que fosse, porque nem é um close - e o filme termina deixando você com cara de tacho.

Scooby-dooby-doo!
Então... tipo... David era um zumbi o tempo todo e os trouxe pra lá pra morrerem... ou então ele virou um zumbi porque combinou a leitura do livro com ter caído na cova...

O zumbi 1 matou Anne jogando a coitada desmaiada no rio?

Quem afinal de contas matou o gato e por quê?

E pra que a cova vazia?







Essas e outras perguntas provavelmente nunca serão respondidas. Com essa febre de refilmagens que assola o cinema, talvez logo logo alguém resolva refilmar essa pérola desconhecida dos filmes B. E espero que dessa vez utilizem um pouco de massa corrida para tapar os buracos do roteiro.

De qualquer forma, esse filme é uma porcaria em vários níveis. Mas é um daqueles que valem a pena uma conferida.


A Casa dos 7 Mortos - Filme B (1 de 2)


Quando você é criança, qualquer filme de terror pode ser bem assustador,  ponto de fazer você fechar os olhos e ainda colocar as mãos por cima pra garantir. No meu caso, o filme de terror que mais me aterrorizou quando eu era pequeno não resisti ao olhar de um adulto.  Bom, quase...


O filme, dos anos 70, era uma das pérolas do SBT, um daqueles filmes que passavam tanto que a fita provavelmente estava a ponto de furar. O filme era presença garantida no Cinema em Casa, Festival de Filmes do SBT, Sabadocine, Oito e Meia no Cinema, Fim de Noite, Duas Sessões, Sessão Premiada, Quinta no Cinema, Sexta no Cinema e na lendária Sessão das Dez (que nunca começava antes de 22h30). Acho que ele só escapou de passar no Cine Disney...


Pôster Incrível!
Para escrever essa postagem, acabei revendo o filme inteiro. Por sorte alguém botou no Youtube uma versão gravada direto da Sessão das 10. Pelo menos a dublagem naquele tempo era uma coisa de qualidade...

E como o cérebro humano é uma coisa engraçada: por mais piadas que eu mesmo já tenha feito sobre todos as crateras no roteiro do filme, rever essa porcaria me fez sentir um pouco o que eu senti quando vi pela primeira vez esse filme. Medo.  Lá no fundo da mente algum arquivo empoeirado foi aberto, e de dentro saiu uma pasta com as emoções que circularam pela minha mente quando eu era só um moleque de 9 anos.

O enredo do filme não é dos piores:

Uma equipe de cinema está filmando em uma casa onde sete assassinatos foram cometidos. O zelador, o incrivelmente sinistro Sr. Price (John Carradine, incrivelmente sinistro) adverte o diretor Eric Hartman (o mítico John Ireland) que eles não devem mexer com coisas que eles não entendem (os tais sete assassinatos tinham relação com práticas ocultistas). O diretor ignora os avisos por querer ser o mais autêntico possível e orienta seu elenco a reencenar os rituais que ocorreram na casa. Acabam invocando um zumbi do cemitério que fica próximo da casa.
 
Bom, como eu disse, a ideia não é tão ruim. O problema mesmo é a maneira como o filme é conduzido.

Só pra avisar, daqui pra baixo vou encher de spoilers.  Não dá pra falar dos acertos (poucos ) e erros (muitos) desse filme sem falar muito sobre o que acontece no filme.

A ideia vem do básico do cinema de horror: um grupo de pessoas em um local antigo e afastado da civilização são confrontados com uma situação que envolve forças ocultas. Horror gótico em seu estado mais puro: uma mansão assombrada, um zelador sinistro, um gato chato...

Aliás, falando em Mansão Assombrada... a casa usada para a filmagem é a mansão do Governador de Utah, em Salt Lake City (EUA). Que lugarzinho mais macabro...
 
Mas que lugar macabro...
 
Brincadeira, pessoal. A mansão mesmo até que é bem bonitinha... Ponto para o pessoal do filme, que conseguiu achar o enquadramento e a iluminação adequados para transformar um prédio oficial em uma mansão de pesadelo.

 
Mas que lugar agradável!


 O filme começa com a morte de todos os membros da tal família Beal. Um é jogado do alto de uma escada, uma aparece afogada na banheira, um leva alguns tiros, uma surge enforcada, um toma uma série de porradas na cabeça, um é esfaqueado, um aparece afogado... essa cena inicial mais movimentada contrasta com o resto do filme, que se desenvolve muito mais mostrando as mazelas de uma equipe de cinema filmando com um diretor tirânico e estressado.


Fala a verdade... Não parece um daqueles filmes baseados na obra de Nelson Rodrigues?



Mas pelo menos o casal mais velho tem uma química melhor do que o casal jovem. É uma química em desequilíbrio constante, mas pelo menos tem algumas ligações covalentes...





Voltando ao filme: Aparentemente, ao longo dos anos, todos o membros dessa família fizeram pactos terríveis, venderam suas almas e tiveram mortes horríveis e violentas (Bom, levando em conta os tipos de mortes atuais nos filmes, não tão horríveis... ). Quando você para pra pensar sobre isso fica a pergunta: "Cara, será que nenhum deles pensou que fazer o tal ritual/vender sua alma não era lá uma coisa tão boa?"  O lema da família deveria ser "Repetir, repetir, repetir até ficar diferente." - Manoel de Barros.

Mas, enfim...

Após a morte dos membros da família, vemos uma mulher fazendo um ritual no melhor estilo cinema anos 70: ela diz algumas palavras de frente para um círculo desenhado no chão. De repente um rosto aparece no círculo.  É o rosto do zumbi que vai aparecer mais tarde e sair matando todo mundo do filme (Upsie! spoiler...). A mulher, por algum motivo, começa a gritar ~coisas tipo "Não! Vá embora!". Esse aí já é a primeira coisa sem explicação no filme. Logo em seguida é revelado que era tudo uma parte da filmagem. Se era uma parte da filmagem, por que o rosto do monstro apareceu no centro do círculo? Não era efeito especial da filmagem, não foi resultado do ritual, mas também não foi uma alucinação da atriz... então, por que o bicho apareceu? Ninguém menciona mais isso no filme...  Não tente entender.

Bem vindos à Casa do Terror...
A filmagem é interrompida pelo sinistro zelador da propriedade, o senhor Bóris Price. Durante a filmagem de uma cena de assassinato ele diz "Não foi assim que aconteceu!"

Conforme o sinistro zelador anda pela casa, mostrando as pinturas a óleo dos antigos moradores da casa e falando sobre suas mortes misteriosas, somos apresentados aos outros autores do filme:

- O tirânico diretor Eric Hartman, dono de um temperamento irascível e de uma língua afiada, está preocupado com suas filmagens e se dispõe tirar o melhor de sua equipe para terminar seu filme com qualidade, nem que para isso tenha que encher os pobres bastardos de porradas verbais (interpretado com brio pelo excelente ator veterano John Ireland, que participou, entre outras coisas, dos clássicos Spartacus e Rio Vermelho).

- Gayle Dorian, a estrela da filmagem. Ao longo do filme ficamos sabendo que ela já foi uma estrela de primeira grandeza, mas com a idade os papéis começaram a rarear e ela tem que se submeter a participar de filmes de quinta categoria - acaba sendo uma piada interna com o próprio filme. Ela também já teve algum tipo de rolo com o diretor. Ah, sim... ela possui um gato que tem nome de gata... Cléo.  (Gayle é interpretada por Faith Domergue [1924-1999], que também participou de vários filmes e era uma boa atriz. Infelizmente esse terror "classe C" foi seu último filme).
David (ou Dave para os íntimos) - Aparentemente o assistente do diretor, mas também faz uma ponta como um cara que é esfaqueado nas filmagens. Foi ele quem encontrou a mansão para as filmagens e parece ser o braço direito do diretor... segue o chefe pra todo lado como um cachorro. Ele tem algum rolo com Anne, a beldade feminina do filme. Interpretado por Jerry Strickler.

Anne - A típica mocinha de filme de terror. Fica o filme todo assustada ou mendigando a atenção do namorado/peguete/seja lá o que for David, que prefere ficar lendo o livro que achou na mansão... Esse David deve estar morto... (hehehe). Interpretada por Carole Wells.

 - Christopher Millan   - O galã da filmagem. Está sempre penteando o bigode e passando a mão pelos cabelos negros e fartos. Ele é o que participa ativamente do primeiro plot twist do filme: ao entrar em seu quarto depois da noite de filmagens, tira o bigode e a peruca.  Wow! (interpretado por Charles Macaulay, um medalhão do cinema. Cara gente boa, participou de alguns episódios de Jornada nas Estrelas inclusive).

E é isso. Existem mais outros tantos atores no filme, mas eles estão lá só pra ser mortos. Uma exceção, que só vou considerar por que sei lá, é o tal de Ron, o maquiador das filmagens e que por duas ou três vezes tenta ser o alívio cômico do filme. O problema é que ele é engraçado como um garoto de 9 anos. Os outros ficam pra lá e pra cá, montando cabos e carregando coisas.
Ou seja, desenvolvimento de personagens nota zero. O diretor é o tirano caricato, a estrela decadente acaba sendo seu amor bandido, o galã do filme fica fazendo monólogos como se estivesse em apresentações teatrais do nada, Dave realmente não se define e fica o tempo todo pra lá e pra cá com o tal livro embaixo do braço e Anne é praticamente Salsicha e Scooby Doo em uma mesma pessoa.

Nessa cena temos 4 atores e 2 figurantes.



A postagem estava ficando muito grande, então....

Continua.